Compasso de Espera nunca sugere a existência de uma alternativa cultural ao mundo branco elitista em que Jorge está imerso. Ao mesmo tempo, o mérito central do filme é sua anatomia descritiva e dramática do racismo brasileiro.

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Elogiado pela crítica e, à época, ignorado pelo público, Compasso de Espera foi rodado em 1969, mas só foi lançado em 1973, causando polêmica no debate sobre o racismo no Brasil. Único filme dirigido pelo conceituado diretor teatral Antunes Filho, é protagonizado por Zózimo Bulbul, ator e cineasta, que colaborou com o roteiro do filme. Bulbul, aliás, já declarou que muito da carga dramática de seu personagem no filme, o publicitário Jorge, foi inspirada em suas vivências pessoais. Participam também Elida Palmer e Renée de Vielmond, esta em sua estreia como atriz.

Na trama, Jorge de Oliveira é um poeta apadrinhado por um rico empresário, ex-patrão de sua mãe, e que trabalha como publicitário em uma agência dirigida por Ema (Elida Palmer), uma rica mulher branca com quem ele tem um caso. Na noite de lançamento de seu novo livro, Jorge conhece Cristina, uma jovem modelo, rebelde e de família aristocrática. Ambos se sentem mutuamente atraídos e passam a viver um romance. Enfrentando crises em sua relação com Ema e vivendo um romance clandestino com Cristina, Jorge busca refúgio por uma tarde na casa de sua mãe, que vive num bairro periférico de São Paulo, onde é confrontado por sua irmã, que o acusa de ter vergonha de suas raízes e de viver uma farsa. Jorge, então, passa a enfrentar a vida e o mundo ao se deparar, de forma cada vez mais ostensiva e até violenta, com as diversas faces do racismo.

Capa Compasso

Antunes Filho já afirmou que a ideia de realizar Compasso de Espera foi fortemente inspirada pela leitura de Florestan Fernandes, que publicou em 1964 o livro “A integração do negro na sociedade de classes”. Jorge, não à toa, habita uma permanente encruzilhada: poeta e publicitário, vive uma vida de classe média e orbita os círculos das elites paulistanas, se beneficiando de aparentes privilégios que seus amigos militantes nunca tiveram. No entanto, ele não é aceito pelo mundo da classe alta que o cerca, e é questionado pelos seus próprios amigos politizados, cosmopolitas, influenciados por Marcus Garvey, Kwame Nkrumah e Abdias do Nascimento.

Muitos filmes brasileiros, ao longo da história de nosso cinema, se esforçaram para pensar o país, com ênfase, talvez, em conflitos e questões sociais que, pode-se dizer, reorganizaram o equilíbrio político no país e levaram a mudanças significativas na sociedade como um todo. “Compasso de Espera” é um desses filmes: embora pouco conhecido, ele se tornou um clássico e, atestando a profundidade do problema do racismo, se mantém duramente atual.

Desde o seu lançamento, em 1973, diversos movimentos vêm lutando para organizar e refletir a questão do racismo cultural e politicamente. Na Bahia, grupos afoxés, como o Ilê Aiyê (fundado em 1974) e o Olodum (fundado em 1979), cumprem papel fundamental nesse esforço. Foi também na década de 1970 que a onda de orgulho negro, fortemente inspirada nos contextos norteamericanos, começou a se espalhar pelo Brasil, acentuadamente no Rio de janeiro e em Salvador. A juventude urbana, especialmente no Rio, começou a adotar emblemas afro-americanos de orgulho negro, no estilo black power. A música afrodiaspórica passa a desempenhar um papel na constituição da identidade negra. Na mesma década, atores e atrizes, além de diretores negros, passaram a conquistar um maior espaço também no cinema.

Compasso de Espera expõe as inúmeras formas do racismo brasileiro, desde gestos condescendentes até atos de discriminação direta e até violência física. Mas o filme foi muito criticado por se concentrar em um personagem deslocado, não representativo da realidade social do negro. Jorge, enquanto personagem, é menos representativo dos negros e até mesmo dos angustiados artistas-intelectuais de um período particularmente repressivo da história brasileira. Para alguns críticos, Jorge se torna um exemplo alegórico da passividade e frustração dos intelectuais em geral.

Estilisticamente, o filme de Antunes Filho é altamente europeizado e mesmo americanizado. A obra não tira proveito das conquistas descolonizadoras temáticas e formais do Cinema Novo. A trilha sonora mistura percussão abstrata, Erik Satie, e Blood, Sweat and Tears, ignorando completamente não apenas a música afro-americana, mas também a presença musical afro-brasileira. Em suma, o filme nunca sugere a existência de uma alternativa cultural ao mundo branco elitista em que Jorge está imerso. Ao mesmo tempo, o mérito central do filme é sua anatomia descritiva e dramática do racismo brasileiro.

No Cinematógrafo, dia 27 de abril, às 16h30, na Saladearte – Cinema do Museu. A sessão será seguida de roda de conversa e os ingressos custam o valor especial de meia entrada para todos.

O CINEMATÓGRAFO NA SALADEARTE

O Cinematógrafo acontece mensalmente na Saladearte — Cinema do Museu (Corredor da Vitória), sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida. Os ingressos são vendidos normalmente no local, com preço especial no valor de meia entrada para todos.

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