Curta-metragem, dirigido e produzido pelos curadores do Cinematógrafo, relaciona Brasil e Palestina, com a participação de Rogério Ferrari.

O filme relaciona Brasil e Palestina e não foi fácil fazê-lo. Entretanto, hoje, cá e lá, tudo piorou…

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Conhecemos Rogério Ferrari, o velho Roge, por volta de 2012 e logo decidimos fazer um filme juntos. Rogério já tinha convivido com palestinos em Gaza e na Cisjordânia, além de suas outras vivências com os curdos, saharauís, zapatistas e outros povos em luta espalhados pelo mundo.

Logo, ele mesmo notou similaridades entre campos de refugiados palestinos e favelas brasileiras. Partimos dessa impressão para realizar “Muros”, percorrendo o Calabar e o Nordeste de Amaralina, enclaves estigmatizados em Salvador, dominados pelo tráfico e cenários de violência policial.

Foi difícil fazer o filme. Tínhamos “autorização” prévia dos traficantes para percorrer os lugares, o que não impediu de sermos expulsos várias vezes das favelas, sob ultimatos. Sofremos, também, alguma pressão por parte da Polícia Militar. Moradores do Calabar e do Nordeste, com boa inserção nos seus respectivos lugares, atuaram como produtores locais, fazendo contatos e abrindo portas. Mesmo assim, houve tensões aqui e ali. O fato é que, nesse sentido, tudo correu bem.

Tínhamos que deixar Rogério livre – ele estava acostumado, em suas vivências, a fotografar sozinho, sem uma equipe intervindo nas relações. Isso nos forçou a inventar e experimentar novos arranjos técnicos de captação de áudio e de imagens. Na captação de áudio, tivemos a preciosa ajuda de Haydson Oliveira. Eu mesmo operava a câmera ao tempo que Mel co-dirigia tudo junto comigo, tendo nossa querida amiga Juliana Freire como produtora, que se mostrou essencial. Contamos também com a colaboração do cineasta Ramon Coutinho nas filmagens, que operou uma segunda câmera que muito nos ajudou.

Durante a experiência da filmagem nos bairros, surgiam divergências de percepções entre nós, diretores, e Rogério, ou dificuldades técnicas que tínhamos que resolver, e íamos alinhando tudo segundo a proposta do filme, que era, centralmente, relacionar Brasil e Palestina através das fotografias de Rogério tiradas em Gaza e na Cisjordânia, e das situações que o filme captava nas favelas de Salvador. O resultado desse esforço pode ser apreciado vendo o filme, disponível através do link nesta postagem.

O filme viajou bastante. Gerou boas discussões. Foi premiado na Bahia, no 5° Feciba; em São Paulo, no 26° Festival Internacional de Curtas (Kinoforum). Mais tarde, ganhou um prêmio de Melhor Som – coisa rara para um documentário – numa mostra do Sesc. Teve sessões marcantes na Mostra Mundo Árabe de Cinema, em SP, onde aconteceu uma exposição de forografias de Rogério resultante das filmagens. Tudo isso contribuiu para que “Muros” fosse sempre visto e discutido.

Destaco, dentre vários eventos, mostras e Festivais em que eu e Mel estivemos presentes com o filme, a experiência da exibição no Fórum Social Mundial, em Salvador, quando Paulo Andrade Magalhaes, o grande Paulão, grande amigo de Rogério e que se tornou nosso amigo querido, promoveu lá uma sessão de “Muros”. O filme ensejou um debate e uma circunstância que, até hoje, não me sai da cabeça e modificou, em mim, algumas visões sobre o mundo e o cinema.

Depois de fazermos o filme, Rogério ainda lançaria seus trabalhos e vivências com os ciganos da Bahia e os povos indígenas, tanto na Bahia quanto no Mato Grosso do Sul. E saía por aí com o “Muros” debaixo do braço, mostrando às pessoas sempre que podia, em eventos, conversas, encontros. (Rogério Ferrari nos deixou, precocemente, em 2021).

O “Muros” é também um legado seu, que se realiza por meio de seu olhar fotográfico e seu jeito de estar no mundo.

O site do filme, que reúne todas as informações sobre o curta “Muros”. Clique aqui.

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