Cinema é essa coisa misteriosa, ritual, subjetiva e coletiva; fruição e diversão vividas de forma lúdica e polêmica e, também, experiência fervilhante de pensamento, crítica e diálogo sobre as coisas do mundo e da vida.

E o que é o Cinematógrafo? O termo evoca a invenção dos irmãos Lumière, a história do cinema, a poética de Robert Bresson e a epifania da sétima arte — e, por extensão, a força expressiva do nosso próprio cinema, que tem na Bahia sua fonte mais rica. Em Salvador, a palavra evoca tudo isso e algo mais: o Cinematógrafo na Saladearte, gesto curatorial dos cineastas Camele Queiroz e Fabricio Ramos que, em 2026, completa dez anos de ações continuadas.
Encerramos 2025 com a mostra “Origens do Cinema”, uma viagem muda e, ao mesmo tempo, eloquente ao instante em que o cinema era magia em constante transformação. Mais do que um mergulho histórico, vivenciamos ali a afirmação do cinema enquanto Arte. Uma escolha simbólica, inspirada pela nossa compreensão das relações entre a tela e a vida: é preciso conhecer os fundamentos para reconhecermos os modos de presença do cinema neste nosso tempo, tão saturado de imagens.
Atravessamos esses anos sem o suporte de patrocínios. As dificuldades são muitas, os desafios, imensos. Mas o que nos move é a certeza de que nunca estivemos sós.
A chama se acendeu em 2016, em Ilhéus, com a mostra Cine Odé – Cinema no Terreiro. Era uma casa-terreiro que tentava se reerguer, simbólica e materialmente, após a partida de seu fundador, Pai Pedro. No barracão, montávamos com as próprias mãos um cinema provisório, exibíamos filmes e conversávamos. Era um período duro, e ver filmes brasileiros juntos, ali, trazia a força de um gesto de restauração.
De volta a Salvador, o Cinematógrafo nasceu em um ateliê desativado até que, em janeiro de 2018, firmamos a parceria decisiva com o Circuito Saladearte, que nos acolheu e nos permitiu crescer e reverberar. Foi nesse percurso que nasceu o Cinematografinho, ação que valoriza o protagonismo das crianças no cinema! Sobrevivemos, juntos, à pandemia — que, paradoxalmente, nos fortaleceu através da vibração dos nossos Encontros Virtuais, que seguem mensais, abertos e gratuitos.

Este resumo da nossa trajetória lança luz sobre a “história do futuro” que construiremos a partir de 2026. É o ano em que, firmando novas parcerias nacionais, vamos inaugurar o Cinematógrafo Brasil, sessão mensal dedicada aos clássicos brasileiros restaurados em 4K, o Cinematógrafo Alice Guy, que homenageia a grande pioneira do cinema artístico exibindo filmes dirigidos por mulheres, entre outras novidades. Seguiremos navegando — às vezes por águas turvas da negligência oficial perante a potência cultural da cidade, mas sempre guiados pelo horizonte vasto da sétima arte.
Contamos com vocês. Com a presença de vocês.
O Cinematógrafo é, afinal, um modo de presença: uma insistência cultural. Uma forma de lembrar, mês a mês, que cinema não é apenas consumo — é formação sensível, memória, ética e espiritualidade. O cinema nos ajuda a pensar o mundo; e o mundo, por sua vez, devolve ao cinema as nossas questões.

Para nós, a curadoria é algo simples e profundo: é assumir a responsabilidade pelo encontro. É conquistar confiança, propor relações e favorecer os vínculos entre pessoas, obras e épocas, entre o repertório e a vida cotidiana. É oferecer contexto e criar pontes para que o filme seja vivido com densidade e liberdade. No Cinematógrafo, conduzimos as sessões, mas não a experiência — esta é sempre autônoma, pessoal e compartilhada. Somos esse espaço raro em que o dissenso é valor e a diferença se torna descoberta e expansão.
Em suma, o Cinematógrafo na Saladearte é uma luz teimosa, frágil e viva. É o nosso modo de dizer a esta cidade — que tanto nos ensina sobre o tempo e a resistência — que sua beleza também se nutre do que projetamos no escuro. Salvador, que você nos veja como um pequeno farol a mais em sua orla; uma fresta de luz onde o seu olhar e o nosso se encontram para reimaginar e, por que não, reencantar a vida.
O Cinematógrafo deseja a todos um Feliz Ano Novo!
A gente se encontra na Saladearte. Mel e Fabricio – Cineastas e Curadores do Cinematógrafo






