Neste fim de semana, a Mostra Truffaut do Cine Cineasta ocupa as manhãs do Cine Daten Paseo (Saladearte) com duas sessões da Mostra François Truffaut no Cine Cineasta: sábado e domingo, 21 e 22 de fevereiro, às 10h30, com curadoria dos cineastas Camele Queiroz e Fabricio Ramos, do Cinematógrafo.

São dois encontros que reafirmam um eixo central do diretor — a paixão como quintessência de sua obra: força que ilumina e desorganiza, que promete sentido e cobra seu preço, movendo personagens e destinos.

Dos curadores:

A HISTÓRIA DE ADÈLE H.

1975 | 96 MIN | ROMANCE/DRAMA

Esta é a obra de Truffaut mais cheia de paixão. A jovem e prodigiosa Isabelle Adjani, em seu primeiro papel de relevo no cinema, é Adèle Hugo, a filha mais nova do grande escritor Victor Hugo, cuja paixão não correspondida por um oficial inglês a lança numa espiral de loucura e obsessão que atravessa o oceano e termina nas paisagens tropicais do Caribe.

Truffaut adapta os diários de Adèle, deixando claro, de início, que o filme se baseia em pessoas e acontecimentos reais, o que favorece um pacto moral com o espectador que se defrontarà com uma personagem tão intensa e obstinada, que nos faz sentir, mesmo em seus gestos mais inaceitáveis, alguma coisa de nobre e de autêntica.

A magistral fotografia de Néstor Almendros e a ênfase que Truffaut dá à Adèle (junto com a esplendorosa performance de Adjani) fazem deste o filme mais belamente pictórico do diretor, e tornam uma história de obsessão e desvario em uma tocante e misteriosa experiência humana.

O amor é, para Truffaut, o tema essencial, na vida e no cinema, espelho da vida. Já vimos, da perspectiva masculina, a ludicidade da paixão no ciclo Doinel e outras variantes, mas é o lado feminino de Truffaut que revela as jornadas errantes, intensas e complexas de uma Jeanne Moreau em Jules e Jim e A Noiva Estava de Preto, nas duas irmãs em As Duas Inglesas e o Amor, ou na tragédia de Um Só Pecado.

Em Adèle H., o humanismo de Truffaut, que, no estilo de seu herói Hitchcock, faz uma breve aparição no filme, alcança um grau único de profundidade nos domínios do pathos que destrói mas também nos faz humanos, demasiado humanos.

⏰️ Sáb, 21 de fev, às 10h30 – No Cine Daten Paseo.


 

A MULHER DO LADO

1981 | 106 MIN | ROMANCE/DRAMA | 14 ANOS

Vários adjetivos já foram dedicados a eeste filme singular da luminosa fase final de Truffaut. Essencialmente, trata-se de um melodrama de aparência simples sob o qual subjaz uma tempestade de paixões. Bem Truffautiano e, também, hitchcockiano no sentido mais profundo: o cotidiano vira terreno de suspense emocional e tudo culmina num clímax de encanto pela vida, com tudo de áspero e belo que ela traz.

Gérard Depardieu é Bernard, homem estabilizado na vida familiar. A chegada do casal Philippe e Mathilde (Fanny Ardant) à casa ao lado provoca o reencontro entre Bernard e Mathilde, antigos amantes. O que parecia enterrado reaparece com a força das coisas mal cicatrizadas: a paixão se reativa, reabre feridas (e abismos), desloca o presente e empurra os personagens para um desfecho abrupto, de beleza trágica.

Truffaut vinha acalentando havia anos a ideia de aproximar, face a face, um homem e uma mulher que já se amaram. Depois do grande êxito de O Último Metrô (que veremos em março), ele sentia que não havia explorado ao máximo Depardieu, com quem se entendera muito bem. E ao ver Fanny Ardant na televisão, escolheu-a para o papel de Mathilde; durante as filmagens, os dois se apaixonaram. Tiveram uma filha, Joséphine, e Truffaut morreria pouco depois, aos 52 anos.

Podemos ver A Mulher do Lado como um dos filmes mais íntimos, cotidianos e mais passionalmente implacáveis de Truffaut: a paixão como energia errante, capaz de iluminar e devastar na mesma medida.

Bernard e Mathilde parecem evocar o belo Hino à Vida de Lou Salomé:

Tão certo quanto o amigo ama o amigo, Também te amo, vida-enigma (…) Pega-me nos braços E se não tens mais felicidade a me oferecer Pois bem! Ofereça-me as suas dores.

⏰️ Dom, 22 de fev, às 10h30 – No Cine Daten Paseo.

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👉 As sessões da Mostra Truffaut no Cine Cineasta são únicas! Precedidas de breve apresentação dos curadores e seguidas de rodas de conversa!

💥 O Cinematógrafo é um espaço permanente de encontro, fruição, conhecimento e reflexão qualificada de Cinema, mediado pelos cineastas Mel e Fabricio., em parceria com o Circuito de Cinema Saladearte. Participe desse movimento da sétima arte em Salvador!

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