Cinematógrafo Brasil” estreia na Saladearte com sessões mensais de clássicos brasileiros restaurados em 4K; A sessão inaugural acontece em 21 de janeiro (quarta-feira), às 19h20, com “São Paulo Sociedade Anônima” (1965) com a presença Marina Person, cineasta e filha do diretor Luiz Sérgio Person.

O Cinematógrafo, iniciativa dos cineastas e curadores Camele Queiroz e Fabricio Ramos em parceria com o Circuito Saladearte, celebra em 2026 uma década dedicada aos encontros, à difusão, ao acesso e à reflexão em torno do cinema, com curadoria e mediação. No ano comemorativo de 10 anos, o projeto amplia sua atuação com novas ações mensais e lança agora o Cinematógrafo Brasil, dedicado à exibição, uma vez por mês, de clássicos do cinema brasileiro restaurados em 4K.

A estreia do Cinematógrafo Brasil acontece com a exibição de “São Paulo Sociedade Anônima” (1965), obra-prima de Luiz Sérgio Person e do cinema brasileiro, seguida de conversa com o público. A sessão terá mediação dos curadores e a presença de Marina Person, cineasta e filha do diretor, convidada especial da noite. O encontro ocorre no dia 21 de janeiro (quarta-feira), às 19h20, na Saladearte Cinema do Museu (Corredor da Vitória).

Marina Person dirigiu, entre outros trabalhos, o documentário “Person” (2007), um retrato íntimo e abrangente da vida e da obra do pai, realizador também de “O Caso dos Irmãos Naves” (1967), outro clássico. Sua participação reforça o caráter de celebração e de encontro que marca a proposta do Cinematógrafo Brasil: trazer a memória do cinema nacional para o presente, com mediação, conversas e experiência coletiva em sala.

Em 2025, o Cinematógrafo realizou a Mostra Origens do Cinema, revisitando o momento inaugural da sétima arte — e uma de suas sessões mais marcantes apresentou o lendário “Limite” (1931), de Mário Peixoto. Agora, o projeto volta o foco para o patrimônio brasileiro em restauros de alta qualidade, abrindo espaço para que novas gerações reencontrem filmes fundamentais na tela grande.

SÃO PAULO SOCIEDADE ANÔNIMA (1965)

Em “São Paulo Sociedade Anônima”, a pressão da vida urbana e do trabalho sobre um homem revela o drama de uma época, de uma cidade e, em última instância, de um país. Desde a abertura, Luiz Sérgio Person e o diretor de fotografia Ricardo Aronovich afirmam um domínio expressivo que coloca o filme num território singular: entre o clássico e o moderno, entre a crítica social e o drama interior.

A história se passa entre 1959 e 1961, em uma São Paulo atravessada pela euforia desenvolvimentista dos anos JK, e acompanha Carlos (Walmor Chagas) — em sua primeira atuação no cinema —, um homem em crise, incapaz de conciliar as pressões profissionais com seus anseios mais íntimos. A trama avança impulsionada por esse conflito interior: Carlos oscila entre revolta e resignação, entre o vazio e a vontade de viver, expondo, pelo prisma individual, a engrenagem social de uma classe média urbana em transformação. O elenco reúne ainda Darlene Glória, Eva Wilma, Otelo Zeloni, entre outros nomes.

Para o curador e cineasta Fabricio Ramos, a sessão inaugural reafirma um compromisso histórico com a memória do cinema brasileiro — e, ao mesmo tempo, conversa diretamente com o presente. “Num momento em que filmes brasileiros voltam a ser reconhecidos nas principais esferas de legitimação do cinema, São Paulo Sociedade Anônima nos lembra de outros grandes momentos do nosso cinema. Person não faz uma ‘declaração’ de época e destoa do pendor ideológico e formal que predominava entre os cinemanovistas. Antes, ele encarna as transformações reais no conflito interior das personagens. É um modo de revelar, a partir do indivíduo, um drama social brasileiro que continua sensível e atual”, afirma.

Já a curadora e cineasta Camele Queiroz destaca a força moderna do filme e sua permanência. “O crítico André Setaro considerava São Paulo Sociedade Anônima contemporâneo dos grandes renovadores da linguagem cinematográfica nos anos 1960, com influências marcantes de Michelangelo Antonioni e Alain Resnais. Person realiza um drama existencial urbano original, único, que tensiona progresso econômico, conservadorismo político e as mudanças de comportamento social — tensões que ecoam profundamente na atualidade”, diz.

A sessão de “São Paulo Sociedade Anônima” no Cinematógrafo Brasil conta com o apoio da família Person, através de Regina Jehá e de Marina Person.

FEVEREIRO: próximo título do Cinematógrafo Brasil

Em fevereiro, o Cinematógrafo Brasil exibe “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil” (1971), de Antônio Calmon. O filme dialoga com a energia estética e política do período, atravessando influências do Cinema Novo, do cinema de gênero e da cultura pop. Com roteiro assinado por Calmon e Hugo Carvana (que também atua e co-produz), reúne um elenco expressivo, com nomes como Cláudio Marzo, Norma Bengell, Dina Sfat, Paulo César Pereio, Maria Gladys, Sônia Braga, entre outros, e inclui cenas rodadas em Arembepe, além de canções de Caetano Veloso, Jorge Bem Jor e os Mutantes presentes na trilha.

O Cinematógrafo Brasil nasce da articulação dos curadores com o Grupo Estação (RJ) e com Cavi Borges, cineasta, programador e agitador cultural. “A ação reafirma e homenageia o compromisso da Saladearte com o cinema brasileiro e fortalece as trocas entre circuitos alternativos de exibição no país”, completa Fabricio Ramos.

OUTRAS AÇÕES DO CINEMATÓGRAFO EM 2026

Além do Cinematógrafo Brasil, o projeto consolida e amplia sua programação mensal com diferentes frentes:

Sessão Alice Guy (filmes dirigidos por mulheres, em homenagem à pioneira Alice Guy-Blaché);

Sessão Oriente (cinematografias da Ásia e de outros territórios do “Oriente”);

Sessão CULT;

Cinematógrafo Raiz (sessão original, dedicada a cinema contemporâneo proposto pela curadoria);

Cinematografinho (formação sensível e lúdica do público infantil).

Em paralelo, a ação Cine Cineasta apresenta, entre janeiro e março, a retrospectiva completa de François Truffaut, com todos os longas-metragens do diretor, incluindo clássicos como “Os Incompreendidos” e “Jules e Jim”, além de títulos como “A Noite Americana”. Em abril e maio, o projeto dedica-se a Agnès Varda, com a exibição de sua filmografia completa.

SOBRE O CINEMATÓGRAFO
Iniciativa independente e sem patrocínio, o Cinematógrafo se mantém por meio da parceria com a Saladearte, a presença do público e do trabalho continuado de seus curadores. Em 2026, ano em que celebra 10 anos, o projeto está aberto a novos apoios institucionais para ampliar suas ações de difusão, formação de público e acesso ao cinema em Salvador.

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