“La Lengua de las Mariposas” narra a relação de amizade entre um menino e seu professor que é considerado inimigo do emergente regime fascista. A sessão acontece no sábado (24) às 16h30, na Saladearte – Cinema do Museu (Corredor da Vitória, Salvador)

 

Nota dos curadores do Cinematógrafo, Camele Queiroz e Fabricio Ramos:

MV5BZTAwNzQ1MTktZDRmMi00OTZjLWJmNjctMGM3ZTQxNjNlYTA4XkEyXkFqcGdeQXVyMTA0MjU0Ng@@._V1_“Esses jovens fascistas não nasceram para ser fascistas”, respondeu Pasolini a Italo Calvino, em uma polêmica sobre os jovens infelizes em que o escritor teria dito: “Os jovens fascistas de hoje não conheço nem espero ter ocasião de conhecê-los”. Para Pasolini, ao contrário, talvez “uma simples experiência diversa na sua vida, apenas um simples encontro, tivesse bastado para que seu destino fosse outro”. Em “La Lengua de las Mariposas” (Espanha, 1999), filme de José Luís Cuerda, Moncho (Manuel Lozano), um menino de sete anos, tem um primeiro encontro desses com um velho professor, Don Gregorio (Fernando Fernán-Gomes) que — talvez — possa marcar a sua sensibilidade e mudar a sua vida.

A história narra a relação de Moncho com seu professor, ambientada num povoado galego em 1935, durante os meses que antecedem a eclosão da atroz guerra civil espanhola – que assolaria a Espanha de 1936 a 1939, resultando no regime fascista de Franco – num ambiente impactado pela brutal polarização entre a ampla frente republicana (da qual participaram também anarquistas e comunistas) e as falanges nacionalistas conservadoras e religiosas.

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Moncho descobre um mundo inteiro de pequenos milagres e conflitos quando passa a freqüentar a escola. Afastando-se por algumas horas de seu círculo familiar, ele vivencia descobertas inquietantes e encantadoras, como os sentimentos de amor e de amizade, que perturbam o peso do conservadorismo que o rodeia. O velho mestre, Don Gregorio, que às vezes parece um tanto desencantado, recobra toda firme confiança quando encontra seus alunos na sala de aula e os estimula a pensar livremente, oferecendo conhecimentos mais fundamentais do que o estritamente curricular, ou mais curiosos como as habilidades do tilonorrinco, um pássaro exótico, ou o formato peculiar da língua das mariposas, atrevendo-se a levar os seus alunos para fora dos muros da escola para que pudessem contemplar com mais vivacidade a natureza que os cerca.

Sob a tensão da iminente guerra civil, entretanto, os conflitos políticos atravessam o cotidiano do vilarejo e afetam as relações entre as pessoas, instalando a desconfiança, o medo e o ódio que desembocarão em drama e tragédia. Em meio ao clima de julgamentos e acusações, o professor Don Gregorio, junto com outras pessoas do vilarejo, passa a ser atacado por ser considerado um inimigo do emergente regime fascista.

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Filme encantador, de forma singela e narrativa sensível, comove com o drama que se desenrola em meio ao ódio e tirania, a inocência perdida e a dignidade humana. A força dramática se manifesta na poderosa e inesquecível cena final, cujo teor insinuado, um tanto enigmático, remete àquela resposta de Pasolini: “esses jovens fascistas não nasceram para ser fascistas”, mas também suscitam a pergunta: o encontro de Moncho com Don Gregorio, em meio de um mundo em vias de ser tragado pela violência e pelo fascismo, oferece a esperança de um outro destino ao menino?

“La Lengua de las Mariposas” é um drama cheio de ternura ambientado no meio do século das catástrofes, no clamor ideológico do século XX. A atualidade das questões que o filme evoca, entretanto, ultrapassa as narrativas das grandes ideologias e o extremismo das guerras, valorizando aspectos menos evidentes, como os efeitos da conformação social, a importância da influência familiar, o papel do professor, as potencialidades da música e da arte, o impacto social de crenças religiosas e políticas, as implicações íntimas e psicológicas das pressões de grupos sociais.

Baseado no livro “Qué me quieres, amor?” do escritor espanhol Manuel Rivas, “La Lengua de las Mariposas” foi indicado a 13 prêmios Goya (o Oscar espanhol), ganhando o de roteiro adaptado. O diretor José Luís Cuerda, além de cineasta, atuou como produtor de vários filmes de sucesso, entre eles Morte ao Vivo (1996), Abre los ojos (1997) e o suspense Os Outros (2001), todos dirigidos por Alejandro Amenábar, cineasta que, de certo modo, foi descoberto por Cuerda.

LA LENGUA DE LAS MARIPOSAS – Espanha, 1999 – Cor – 1h36min – Legendado. Dir. José Luís Cuerda. Classificação Indicativa Livre.

O CINEMATÓGRAFO NA SALADEARTE

O Cinematógrafo acontece mensalmente na Saladearte — Cinema do Museu (Corredor da Vitória), sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida. Os ingressos são vendidos normalmente no local, com preço especial no valor de meia entrada para todos.

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Um comentário em “Cinematógrafo de novembro (sáb, 24/11): “La Lengua de las Mariposas”, um drama sensível sobre descoberta, amizade e a tragédia do fascismo

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