O Rock como Pátria* é o mote da sessão especial de fevereiro do Cinematógrafo na Saladearte: um ingresso para ver dois filmes!

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Entre a Vontade de potência e a potência do Falso (dos curadores):

Jim Morrison, no show do The Doors “Live At The Isle Of Wight Festival 1970”, canta “sem mexer um músculo”, como se o Dionísio estivesse acorrentado. Entretanto, a performance do grupo, musicalmente impecável, e a atmosfera de uma agressividade contida que Morrison transmite, olhos fechados, o rosto barbudo sugerindo um ar de jovem profeta, e ainda a solitária luz vermelha que ilumina precariamente o palco e que inspira, por sua cor sanguínea que oscila nas sombras que a contrastam, um sentimento de conflito entre luz e sombra, entre a paixão que parece ter perdido o fogo mas insiste em sua brasa – “Light my Fire” é o grito que ecoa antecipando o clamor “This is the end / Beautiful friend /This is the end”.

Morrison encarnava ali, a um só tempo, o triunfo das forças reativas do mundo e a indestrutível tendência da potência a se ultrapassar e se expandir. Jim enfrentava ali os seus próprios demônios e, ao mesmo tempo, a perseguição do Estado que o condenou por “exposição indecente”. O artista morreu pouco depois, em julho de 1971, e o que ele expôs ao mundo, permanece.

Nessa época, o mundo, e o mundo do Rock, passava por incandescentes transformações sociais e culturais. Sintomaticamente, o desaparecimento de Jim Morrison coincidia com a emergência do glam rock na Inglaterra. Em “Velvet Goldmine”, o diretor Todd Heynes se apropria da dimensão mitológica constituinte do “astro do rock”, sujeito que, não raro, desaparece em seu auge. O glamour, a extravagância e a estranheza dos artistas ícones da cena glitter (referenciados, no filme, principalmente por David Bowie e seus amigos Iggy Pop e Lou Reed) dançam, para pormos em movimento uma imagem de Deleuze, no grande baile da “potência do falso”. É como se as metamórficas presenças do glam rock, ao negar o romantismo e o simbolismo que artistas como Jim Morrison expressavam, os afirmassem de forma mais profunda. Falsificar, enganar, metamorfosear insinuam a vontade de potência através da potência do falso.

Talvez seja lícito perguntar, de uma perspectiva alienígena, se Bowie existiria sem Morrison.

Não à toa, pelo menos Iggy Pop (segundo consta em “Mate-me Por Favor”, livro que conta a história do fenômeno punk americano) se diz influenciado pelas performances primais de Jim Morrison no palco, que o teriam inspirado, a Iggy, ultrapassar alguns de seus limites.

Na sessão do Cinematógrafo Double Bill, no dia 23/2, em uma parceria curatorial, o nosso amigo Adolfo Gomes, curador, programador e crítico de cinema, propôs o mote “O Rock como Pátria” para introduzir o link entre os dois filmes: o show do The Doors e “Velvet Goldmine”.

A seguir, as palavras de Adolfo:

O Rock como Pátria*

Começamos “quando a música termina”. Fica o espaço outrora ocupado por ela, que até hoje nos serve como pátria. Jim Morrison desapareceria num quarto parisiense em um gesto a um só tempo mitológico e mágico. Como o poeta romântico, não conheceria os riscos do declínio sensorial que o demasiado passar dos anos sobre a Terra, às vezes, impõe a muitos seres arrefecidos em seus impulsos ancestrais.

O show do The Doors na Ilha de Wight, última aparição musical registrada de Morrison, é um grande fora de campo desse território comum por nós habitado através da arte; seja na experiência física compartilhada de uma performance ao vivo; seja na memória coletiva construída e salvaguardada (?) pela captação audiovisual. É o que temos: o mito e o mistério, para além do paradoxo inusitado que tal encontro sugere.

Assim, reunimos um doc expressionista (as sombras móveis sobre o The Doors ocasionadas por uma contingência técnica da apresentação, é parte dessa mitologia) ao multicolorido e wellesiano “Velvet Goldmine”, a inserção quase arqueológica de Todd Haynes pela geração glam rock.

Em tempos sombrios como esses que vivemos, diante da plena potência da pós-verdade; convém olhar para a origem das coisas sob a promessa de um novo itinerário. Sem certezas ou dogmas estabelecidos, convidamos todos a reencontrarem o homem no palco com alguma luz sobre ele, possível pintura rupestre dos nossos sonhos esquecidos.

*Rock como pátria é uma expressão cunhada pelo curador e crítico de cinema Amir Labaki para definir, com grande propriedade, um documentário realizado pelo cineasta alemão Wim Wenders em 2001: “Ode a Colônia”.

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CINEMATÓGRAFO DOUBLE BILL

O Cinematógrafo de fevereiro (dia 23/2), portanto, traz a sessão dupla: um ingresso (valor único de meia entrada para todos: R$ 12,50) para ver dois filmes.

1) The Doors “Live At The Isle Of Wight Festival 1970”

A última apresentação registrada do “The Doors”, no icônico festival da Ilha de Wight de 1970. O repertório reflexivo e a performance, a um só tempo, intensa e contida de Jim Morrison, encarnando um “Dionísio Acorrentado”, dão ao show um caráter único e atual. (Duração: 1h)

2) “Velvet Goldmine” (1998), de Todd Heynes.

Lançado em 1998, o filme nos conduz numa agitada viagem pelo mundo emergente do Glam Rock, para ser apreciada em alto volume! Estrelado por Jonathan Rhys Meyers, Ewan McGregor e Christian Bale, interpretando papéis inspirados em artistas do período, o filme toma a figura de David Bowie como referência. Concorreu ao Oscar de melhor figurino no ano de seu lançamento. A estrutura narrativa do filme lembra a de “Cidadão kane” e a sua riqueza visual reflete a extravagância estética da cena Glitter! A trilha sonora traz canções de artistas e bandas como Roxy Music, T.Rex, Gary Glitter, Cockney Rebel e The Stooges. (Duração: 2h)

O CINEMATÓGRAFO NA SALADEARTE

O Cinematógrafo acontece mensalmente na Saladearte — Cinema do Museu (Corredor da Vitória), sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida. Os ingressos são vendidos normalmente no local, com preço especial no valor de meia entrada para todos.

Localização:

 

Um comentário em “Cinematógrafo Double Bill (23/2): “The Doors” e “Velvet Goldmine”

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